Adoração extravagante - Que movimento é esse?


     “Toda embalagem precisa de rótulo!” Essa foi a frase que ouvi, recentemente, de um pastor amigo, e que me levou a questionar o porquê de uma colocação tão enfática. O que aquele pastor estava querendo afirmar com aquela determinação toda que acompanhou a entonação de suas palavras? Ao continuar ouvindo o relato de uma experiência que o mesmo havia tido, descobri que ele estava se justificando por ter defendido, diante de outra pessoa, a necessidade de que cada comunidade cristã tenha sua própria identificação para evitar certas “confusões”.
      Sinceramente, aquela frase e uma série de outros eventos, desde então, têm me levado a pensar sobre a pertinência ou não daquelas palavras. “Toda embalagem precisa de rótulo!” Do ponto de vista do marketing e de produtos comercializados, essa declaração está mais do que certa. Por outro lado, o que dizer da mesma quando a questão se aplica ao cristianismo e manifestações ministeriais ou a expressões diferentes de sua espiritualidade?
      Não conseguiremos ver a defesa de tantos rótulos nos relatos bíblicos ou nos relatos históricos dos primeiros anos da igreja cristã. Tenho a forte impressão de que existem certas conseqüências resultantes dessa importância demasiada ao rótulo, que seus próprios defensores sequer pararam para refletir acerca disso. Dentre elas gostaria de citar algumas:
      • Marca Patenteada – Traduz a exclusividade ministerial de quem patenteia o mover ou o conjunto de doutrinas.
      • Competição – Demonstra a característica marqueteira que a igreja cristã, sobretudo na sua corrente evangélica brasileira, vem desenvolvendo.
      • Mercado – Dá um sentido de que estamos comercializando o que é sagrado e gratuito.
      • Exclusivismo – Os defensores dos rótulos como condição essencial para a aceitação ou pertencimento fazem da comunidade da fé, formada pela graça, um clube de interesses em comum.
      • Sectarismo – O rótulo não é o problema. O problema é a não aceitação de uma manifestação desrotulada. A essencialidade de rótulos – que deveria ser secundária – dissemina o sectarismo dentro do corpo de Cristo. Isso pesa contra a unidade. Destrói toda possibilidade de laços familiares e sentido de Corpo. Não há como ser família sem aceitar a singularidade e as diferenças que cada pessoa ou grupo apresenta. Não há necessidade de que destaquemos as diferenças, mas que trabalhemos no sentido de encurtar a distância que nos separa.
      O que tem isso a ver com o tema deste artigo? Tudo. Tenho ouvido, recentemente, de todas as maneiras e entonações possíveis, esta expressão: adoração extravagante. A partir daí, novos rótulos têm sido encaminhados ao setor de “controle de qualidade” da igreja, normalmente supervisionado por pessoas que se sentem chamadas ao ministério de “Análise de Produtos Comercializados”. As pessoas envolvidas tanto no setor de análise como nos demais grupos começam a se manifestar com todo tipo de idéia: uns defendem, outros condenam, outros analisam, outros criticam, outros aguardam frutos, outros vivenciam o processo, e assim vai...
      Recentemente, enquanto compartilhava um estudo bíblico com minha comunidade acerca da seriedade da manifestação da presença de Deus, deparei-me com o episódio em que Davi dançara com todas as suas forças diante da arca do Senhor (2 Sm 6.14-22; 1 Cr 13.16). Como foi interessante observar a força daquelas cenas! Davi, o cantor, o compositor, o guerreiro, o homem segundo o coração de Deus e o adorador que dançava e gritava intensamente celebrando a presença do Senhor. Também foi interessante perceber Mical, a filha de Saul e esposa de Davi: Uma mulher observadora, apaixonada pela reputação própria e possivelmente pelo marido. Mulher de posição considerável, politicamente correta. No entanto, a mulher que desprezou em seu coração uma adoração honesta, transparente e espontânea por parte do próprio marido. Uma mulher que, por causa da atitude crítica e condenadora diante de uma espiritualidade simples, foi condenada à amargura da esterilidade no restante de sua vida.
      Ao tentar visualizar aquela cena nenhuma outra expressão traduz tanto o que percebo e imagino quanto “extravagância”. Nada soaria mais extravagante do que ver o rei, eleito por Deus, sacudindo-se de um lado para o outro, sob o som das cornetas, harpas e tamborins, e expondo-se ante a observação e o julgamento dos mais diferentes tipos de pessoas, das mais diferentes classes religiosas e sociais. Quanta extravagância! Nada poderia parecer mais ridículo aos olhos pomposos de escribas, teólogos, mestres da lei e outros da classe religiosa e, é claro, não posso me esquecer dos outros religiosos, aqueles que são frutos da manipulação intelectual e persuasiva de seus respectivos líderes.
      Pensar em Davi também me levou a pensar em Jesus. Não posso, também, deixar de considerar extravagante a maneira como Jesus se portou na presença de certos pecadores (Mc 2.15-17). A Bíblia diz que os analistas do mercado religioso da época rotularam Jesus de comilão e beberrão (Lc 7.34). Imagine a cena que se desenrolava durante aquele encontro: Jesus havia sido convidado por Mateus, aquele coletor de impostos, famoso por fazer parte do sistema que extorquia dinheiro do povo, para ir à sua casa e participar de um jantar para o qual havia convidado também outros amigos de trabalho, da rua, e quem sabe, companheiros de boteco. Isso me leva a ponderar, e convido o leitor a refletir comigo. Que tipo de cena seria mais coerente com a situação e com a personalidade de Jesus: um mestre cara-fechada, estilo doutor da lei, que apontava insistentemente para os pecados que lhe eram perceptíveis na vida dos ilustres companheiros de banquete? Ou seria, porventura, aquele mestre, com diploma sem reconhecimento das melhores Universidades da época, mas cheio de prazer, alegria e boas risadas, enquanto compartilhava amor – o sinal maior da manifestação do Reino – com aqueles miseráveis? Creio que será difícil não aceitar a última opção como a resposta mais provável, não é verdade? E quer saber que expressão caberia melhor para descrever aquela cena litúrgica que Jesus vivenciou com aqueles pecadores? Extravagância. É isso aí... Quanta extravagância! Como conceber a idéia do Espírito de Deus se regozijando no meio de pecadores, num ambiente de tanta carnalidade. Só mesmo a extravagância da graça para explicar esse fato (Rm 5.20). Jesus era, definitivamente extravagante, e isso incomodou muito os seus compatriotas judeus, principalmente aqueles que tinham por hobby engessar a fé, engrossar a lei e aprisionar os adoradores.
      Mas, será que estamos falando da mesma coisa? Será que as inúmeras vezes que me deparei com esse termo as pessoas estavam se referindo à mesma atitude de Jesus? Possivelmente não. Ponho-me a pensar, entretanto, sobre qual lado está o peso de maior juízo: o lado dos que julgam ou o lado dos que estão sendo julgados? Não é minha proposta fazer apologia nenhuma a quem quer que seja. Antes, meu desejo é convidá-lo(a) a fazer a análise que o Pai faria de nós e nossas pretensas atitudes: onde está o problema? Que tipo de atitude seria a mais recomendável?
      Preciso ser sincero o suficiente ao afirmar que a expressão adoração extravagante me incomoda quando penso na possibilidade da mesma vir desconectada de um estilo de vida que aponta para as prioridades e justiça do Reino de Deus. Richard Foster, em seu livro Celebração da Disciplina, faz uma afirmação impactante:
      “Se a adoração não nos transformar, ela não é adoração. Estar diante do Santo da eternidade é transformar-se... Se a adoração não nos impulsionar para maior obediência, ela não é adoração. Assim como a adoração começa em santa expectação, ela termina em santa obediência.”
      Com toda certeza, não são apenas gritos espontâneos que caracterizam uma adoração extravagante (Jó 35.13). Ela pode se manifestar em terrenos distantes de qualquer histeria ou mesmo ambiente musical. A grande extravagância da adoração de Francisco de Assis estava muito mais presente em sua atitude abnegada e encharcada de amor, do que nas reuniões que participou na famosa e pequena capela onde se reunia para a adoração. A grande visibilidade de seu caráter adorador foi percebida no contato que teve com os mais pobres, os enfermos, os desprezados, os marginalizados e os incrédulos, enfim. Quanta extravagância fluiu daquele adorador! Um de seus biógrafos relata o episódio em que Francisco e seus discípulos encontravam-se reunidos à mesa para a refeição, quando começaram a compartilhar sobre a grandeza dos feitos do Altíssimo e entraram numa atmosfera de tamanha adoração. O biógrafo relata ainda que, minutos depois, os moradores daquele vilarejo avistaram um fogo que estava sobre a casa e todos começaram a buscar baldes com água para apagar o incêndio. Ao chegarem ao local encontraram Francisco e seus amigos tomados por verdadeiro êxtase, verdadeiramente arrebatados pelo poder do Espírito de Deus. O único fogo que estava naquele lugar era do fulgor da glória da presença de Deus. Quanta extravagância! Um bando de semi-mendigos “leigos”, apaixonados por Jesus e por toda a ideologia dos evangelhos, totalmente imersos numa adoração celestial. Resultado? Vasculhe a história mundial e procure saber por onde circula o nome de Francisco de Assis: hospitais, ruas, avenidas, bairros, cidades etc... Agora, tente adivinhar quem foi o referencial absoluto na vida daquele homem... Isso mesmo: Jesus Cristo.
      Imagine como nos sentiríamos se presenciássemos, numa data especial, com celebrações ou eventos especiais, em nossa igreja, a seguinte cena: Uma pessoa com certa “fama” – uma ex-prostituta, um ex-travesti, um ex-dependente químico – colocando-se na frente de todos os “santos” presentes, e de repente começasse a rolar no chão, com roupas simples ou até mesmo sujas, gritando, chorando e declarando seu profundo amor e sua gratidão por Jesus. Que tipo de reação teríamos? E se, durante o período de adoração – seja com hinos antigos ou com cânticos novos – essa mesma pessoa começasse a gritar e dançar com todas as suas forças, e começasse a chorar de soluçar, berrando o seu amor por Jesus. O que faríamos? Possivelmente, arrumaríamos um jeito de retirar tal pessoa de lá – ou até mesmo da igreja – e, talvez, até arrumaríamos um bom psicólogo para tratar de seus desequilíbrios emocionais. Gente desse tipo está totalmente desequilibrada.
      Bem, para nossa surpresa, algo semelhante aconteceu envolvendo Jesus e os maiores conhecedores da religião e da teologia da época: Uma mulher com certa “fama” roubou a cena (Lc 7. 36-50). Invadiu a sala do banquete, aproximou-se dos homens – sacrilégio! Pior ainda: jogou-se aos pés de Jesus e começou a beijá-lo, em profunda adoração. Uma adoração mais que extravagante. Deseja lembrar-se da reação de Jesus? Diferente de nossa possível reação, ele a amou ainda mais. Ele exaltou aquela atitude inconseqüente. Mesmo que ela parecesse emocionalmente desequilibrada. Afinal, no time de Davi, de Jesus, de Bartimeu, de Maria, de Francisco e de muitos outros adoradores extravagantes anônimos, parece só caber atitudes desequilibradas... radicais.
      Por que nos incomodamos tanto com a forma de adoração de outras pessoas e não nos incomodamos com a nossa própria falta de frutos que glorificam o Pai? Por que esperamos ser aplaudidos por Deus pelo conhecimento bíblico e teológico que temos, e não nos esforçamos pela prática dos aspectos mais simples do cristianismo que deveriam ser demonstrados por nós ao mundo? Por que julgamos tanto o culto externo dos outros enquanto não damos um passo para externar os nossos cultos? Por que julgamos como obra do Espírito o que cabe em nossa mente e não buscamos coerência com a soberania do Deus que jamais será vencido ou enganado? Por que pensar que a adoração é extravagante apenas quando gritamos palavras espontâneas? Por que confundir espontaneidade com avivamento? Por que não nos preocupamos em ser os extravagantes dos cultos que se dedicam, dia a dia, à prática das boas obras e da proclamação do evangelho do Reino? Por que temos tanto medo de nos expor? Quem colocou tal algema em nossa mente e em nosso coração? Será que o desejo de Jesus é que seus adoradores o adorem em silêncio, em suas catedrais exóticas ou templos faraônicos, sem a menor espontaneidade ou alegria? Não seria isso outro tipo de reza e indiferença para com nossa autenticidade?
      Integridade, simplicidade, honestidade e humanidade: palavras que devem fazer parte do estilo de vida e culto dos adoradores, devotos de Jesus Cristo. Daí segue uma pequena palavra de apoio e incentivo à irmandade cristã: Não sejamos mais juízes de quem quer que seja; esta não é, terminantemente, a nossa vocação. Sejamos adoradores extravagantes. Celebre a fé, a cruz, a ressurreição, o Reino, a libertação, a presença do Espírito Santo e a nova vida em Cristo Jesus. Se quiser gritar, grite. Se quiser ficar em silêncio, fique. Se quiser dançar, dance. Se quiser permanecer assentado, permaneça. Se quiser cantar hinos antigos, cante. Se quiser cantar apenas os novos e repetitivos refrãos, cante. Se quiser erguer as mãos ou prostrar-se em adoração, faça-o. Se, no entanto, quiser se levantar apenas ao som do órgão ou piano, aja assim. Seja coerente e busque o lugar da sua identificação. Mas não confunda essas atitudes com a essencialidade da adoração. A essência da adoração é Jesus. Ser um adorador extravagante é simplesmente ser como Jesus: em casa, nas reuniões da igreja, na rua, com os irmãos da fé e com os “irmãos de criação” – os seres normais e carentes deste mundo que Deus ainda ama (Jo 3.16).
      No mais, que nossa vida seja a mais autêntica expressão da oração que o Senhor nos ensinou:
      “Venha o teu reino!”

      Revista Mensagem da Cruz nº 125
     Celso Tavares é pastor da Comunidade do Caminho de Belo Horizonte, e membro da Vineyard, USA.