Escravos do temperamento: Estúpido, tímido, triste, precipitado e ainda cristão.
 
Domingo. A oração, a Bíblia e o louvor abasteceram-me e me deixaram repleta de presença do Espírito Santo. Na última oração, prometi a Jesus que me manteria mansa, alegre, calma e amorosa durante toda a semana. Segunda-feira. Ainda marcada pelo culto da noite anterior pego o meu carro e dirijo-me ao trabalho. Uma fechada que um outro motorista me dá me faz esquecer a promessa e instantaneamente reajo com violência. Ira, raiva e vontade de xingar são sentimentos que se misturam dentro de mim.  
Esse pode ser um exemplo simplista de uma evangélica anônima, mas que revela e retrata a ambigüidade existente entre os cristãos que sabem como devem se comportar, mas não conseguem reagir como o determinado pela Bíblia. É visível que o crente vive em um mundo cada vez mais parecido com uma "panela de pressão". A pressa, o con-sumismo, a cobrança por resultados imediatos no trabalho e na igreja, a educação dos filhos, o casamento são situações que consomem grande parte da energia de uma pessoa e podem levá-la ao estresse.
 
Com isso, um seguidor de Cristo começa a sucumbir e não consegue viver constantemente as nove carac-terísticas da vida plena do Espírito Santo: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio.
 
Entre a teoria e a prática desse ensi-namento bíblico, a distância pode ser quilométrica. Enquanto uns de culpam por não atingir o alvo, outros justificam o seu comportamento. Há ainda aqueles que desenvolvem neuroses psíquicas como medo e culpa, que resultam em doenças como depressão e síndrome do pânico. Mas, afinal, o que está por trás desse comportamento?
 
Famoso e polêmico, o esritor e pastor Tim LaHaye diz que o temperamento influencia tudo quanto uma pessoa faz, desde os hábitos de sono e de estudo, o estilo de alimentação e até a maneira como se relaciona com os outros. "Humanamente falando, não existe outra influência em sua vida que seja mais poderosa que seu temperamento ou a combinação deles", escreveu LaHaye em seu livro Por que agimos como agimos. Ele resume o temperamento como "a combinação de características com as quais temos nascido.
Dá pra mudar nosso geito de ser?
 
O caráter é o nosso temperamento 'civilizado'. A personalidade é a 'face' que mostramos a outros”, afirma o escritor em sua obra.  
Muitos líderes evangélicos têm utilizado a Teoria dos Quatro Temperamentos, adotada por LaHaye e publicada no Brasil na década de 1960. Nesta teoria, criada por Hipócrates (460 370 a. C.), o temperamento do ser humano é dividido em sangüíneo, melancólico, colérico e fleumático. O objetivo do escritor é fazer com que o cristão se auto-avalie e aprenda como Deus poderá transformar os defeitos do temperamento. Para ele, o homem carnal e o cristão imaturo se deixam dominar ou influenciar pelos aspectos negativos dos seus temperamentos. Muitas situações difíceis na Igreja, no lar e na vida secular são criadas por conhecimento das fraquezas e falta de um critério espiritual para tomar uma nova direção.  
Porém Sigmund Freud desferiu um golpe devastador à Teoria dos Quatro temperamentos, no século 20. Sua pesquisa apontou que é o meio ambiente que determina o comportamento do indivíduo.
Essa teoria, segundo LaHayer, é diametralmente oposta à teologia cristã e em vez de fazer o homem sentir-se responsável pela sua conduta, fornece-lhe uma válvula de escape que o isente de seu mau comportamento.
 
O representante comercial Luciano Muniz, 29 anos, descobriu em um teste realizado pela igreja que seu temperamento o encaixa entre os coléricos, aqueles em que LaHayer aponta, dentre outros pontos fracos, a crueldade e a ira. “Sou rude e áspero com meus subordinados quando alguma coisa não sai do jeito que eu quero”, admite, “mas, depois, tenho sentimento de culpa. Por outro lado, não tenho problema em pedir desculpas”, garante.
 
Para o psicólogo Samuel Costa, do Corpo Psicólogo e Psiquiatras Cristãos (CPPC), do Rio de Janeiro, a saúde mental é preservada quando o evangélico se lembra da sua humanidade para não sofrer com as suas reações.  
“Às vezes, perdemos a calma e isso é normal. O importante é reconhecer os nossos erros e readquirir o equilíbrio”, explica. O grande perigo é a negação das emoções, segundo a psicóloga Danielle de Cássia Morelli Garcia, do CPPC de Porto Alegre. “Não se pode negar a emoção. A pessoa deve aceitar que está sentindo ira e raiva. O que se deve é aprender a reagir de forma adequada. Isso é diferente daquele cristão que não sente raiva, não confronta. Isso não é humano. Ao negar a existência de algo, também se gasta a energia psíquica e emocional. Isso gera neuroses como depressão e medo”, explica. Danielle diz ainda que, ao sublimar suas emoções, o cristão desenvolve o que ela chama de “doença espiritual”. E esclarece: “Você sente algo e nega. Não está negando apenas para o próximo, mas para Deus. Isso gera sentimento de culpa porque as suas reações não são espontâneas. Não está se relacionando com Deus de forma espiritual.”  
A melhor forma de lidar com a emoções, segundo Larry Grabb descreve no livro Tudo sob controle, da Editora Textus, é praticar dois princípios básicos: “Reconhecer os sentimentos para nós mesmos e diante de Deus, nos permitindo experimentar todo o peso das emoções em nosso interior.” Segundo ele, essa é a estratégia bíblica que encontra o equilíbrio entra lançar os sentimentos sobre os outros (o que vai contra os propósitos de Deus) e bloqueá-los em nosso interior (o que nega a graça de Deus é suficiente para que Ele nos aceite como somos). Nas duas posturas, a sinceridade e a expressão seletiva, o alvo é honrar a Deus.
 
Já a pastora do Ministério Internacional da Restauração, de Manaus (AM), Ana Márcia Souza, afirma que o crente tem de ter controle sobre si próprio. Para ela, todos os temperamentos têm raiz maligna e os seres humanos são propensos a reagir conforme o temperamento mais predominante. “Essas características da velha natureza têm de morrer. Precisamos anular essa origem de maldição sobre nós e disciplinar os nossos temperamentos pelo Espírito de Deus”, afirma, acrescentando que “somos templo de Deus”. Então o nosso corpo não pode ser dominado pela cólera, ira, frieza ou depressão”.
 
Para o pastor e conferencista Russel Shedd, a maioria dos evangélicos é dominada pela vontade carnal que dá mais ênfase ao individualismo do que à generosidade. “Hoje o que se reforça é o temperamento (vontade carnal) herdado dos pais e não a submissão ao Espírito Santo”, garante.
 
Ele afirma ainda que o que reforça a manutenção do comportamento não adequado é o fato de que o crente está satisfeito com a justificação (aceitou Jesus e, portanto, está salvo) e não com a santificação (entrega e busca por mais intimidade com Deus que gera mudança de comportamento, postura, enfim, a santidade na Prática).
Continua, aguarde...
 
Revista Enfoque Gospel - Rose Guglielminetti
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