O Juízo Começa na Casa de Deus
 
Ouvimos com tristeza e indignação o noticiário acerca dos indícios de corrupção no alto escalão da política brasileira.
A corrupção é um mal endêmico neste país, que remonta à história da colonização, passando pela conquista predatória, as capitanias hereditárias, a escravidão, culminando com o clientelismo, o coronelismo, o fisiologismo, a falta de caráter no trato da coisa pública. Tudo isso é agravado pela falta de transparência do financiamento das campanhas políticas garantidas pelo caixa dois de poderosos e inescrupulosos grupos empresariais que depois cobram a conta em forma de concorrências fraudulentas e super-faturamento de suas obras e serviços para o governo.
 
O que fazer então? Como combater uma prática iníqua que atinge profundamente o tecido social brasileiro como um todo? O levar vantagem, a sonegação, o caixa dois, o acerto por fora, a propina, as comissões, a maquiagem de produtos, a pirataria, o sem-nota fiscal, a informalidade, a exploração da mão de obra, os achaques de fiscais e policiais, os rolos, as falcatruas, os enriquecimentos ilícitos, tudo é a matéria-prima que deforma e distorce o caráter do brasileiro, que alcança a todos: jovens, adultos, pobres, ricos, empresários, políticos, crentes e descrentes.
 
No passado, a Igreja brasileira era uma minoria, uma espécie de reserva moral e ética. Cresceu muito no entanto, nos últimos anos, e assim foi se tornando também cada vez mais parecida com a sociedade. É triste reconhecer que nossa comunidade evangélica carece de autoridade espiritual para exortar a nação. Precisamos olhar primeiro para dentro e nos arrependermos.
Sim, o juízo de Deus começa em sua casa. O que dizer desta igreja imensa, que representa 15% ou 20% da população? Isso significa que evangélicos estão espalhados em cada segmento da sociedade. Temos ministros, governadores, prefeitos, deputados federais e estaduais, vereadores, juízes, promotores. Temos inúmeros evangélicos em posições de destaque no governo federal, estadual, municipal, tanto no Executivo, como no Legislativo e Judiciário. Crentes ocupam postos-chave em estatais, multinacionais, bancos, pequenas, médias e grandes empresas nas áreas da indústria, agricultura, comércio, finanças e serviços.
 
O juízo começa na casa de Deus. Enquanto todos se eximem de suas faltas e acusam os outros, nós deveríamos fazer o contrário: admitir e confessar nossos pecados. Ao invés de triunfantes Marchas para Jesus, façamos quebrantadas demonstrações de arrependimento.
 
Pastores, que se arrependam de sua ambição, busca de poder e omissão de palavra profética. Que incluam a cruz, o quebrantamento e a santidade em suas pregações. Que preguem a verdade, Cristo, o Evangelho que exige desprendimento, vida íntegra e simples. E vivam o que estão pregando. Homens públicos, que se arrependam de negociatas e, como Zaqueu, venham a público para confessar, pedir perdão e restituir o que foi tomado indevidamente. Que recusem toda e qualquer forma desonesta de lidar com a coisa pública e despertem para uma genuína vocação de servir a nação. Empresários, que se arrependam dos negócios escusos, do caixa dois, da sonegação, denunciem os fiscais corruptos, deixem de comissionar compradores por fora. Que invistam no social, no desenvolvimento pessoal de seus empregados, na preservação do meio ambiente. Somente quando nos arrependermos teremos autoridade para propor mudança à sociedade brasileira. Cristãos que exercem cargos e mandatos políticos poderão, então, se unir numa frente suprapartidária contra a corrupção e propor reformas políticas que atenuem as práticas ilícitas. Surgirão então, entre nós, homens como José do Egito, Daniel e Neemias. Cristãos ligados ao Judiciário se unirão numa frente contra a impunidade e proporão o aprimoramento das leis e processos judiciais. Cristãos ligados à empresa privada se juntarão numa frente contra os negócios escusos e proporão um choque ético nas práticas do mercado.
 
E todos nós, cristãos, em todo lugar, seremos um só coração num genuíno arrependimento que transforme nossas vidas descomprometidas em vida santas e proféticas.
 
Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada (I Pedro 4:17).
Que o Senhor tenha misericórdia de nós.
 
Pastor Osmar Ludovico -
Revista Enfoque Gospel, Outubro, 2005
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